31 de março de 2009

éramos duas, agora somos uma só.


E assim nasceu um grande amor.

Dizem que as tecnologias não servem para nada. Eu digo que se não fosse o desenvolvimento que hoje possuímos que não a tinha comigo.
Há quem fale em destino. Que estávamos destinadas a cruzarmo-nos uma com a outra,
fosse qual fosse o motivo e a razão. Não sei, acho que não acredito nessas coisas da vida, acho que tudo o que acontece é por mero acaso, mas no fundo talvez sejamos nós a fazer as nossas escolhas, inconscientemente.

E nós escolhemo-nos, mutuamente, em sítios diferentes mas em momentos iguais das nossas Vidas. Escolhemos que nos queríamos, que em qualquer situação iríamos precisar uma da outra, que era para sempre.
Sempre achei uma estupidez fazer homenagens às pessoas depois de elas morrerem, porque elas precisam de ser reconhecidas quando estão connosco. Nunca sabemos quando é o fim, podia ser agora mesmo enquanto escrevo, pode ser daqui a umas horas enquanto durmo, pode ser amanhã ou até pode ainda demorar muito a chegar, mas quero escrever sobre ela agora, porque é hoje que sinto a sua falta.
Ela, ela e apenas ela. É ela que faz tudo por mim, é por ela que eu faço tudo. É ela que vejo quando me olho ao espelho, esteja eu a chorar ou a sorrir.
Ela é o meu mar agitado quando vivo na monotonia e é o meu mar sereno quando o que me rodeia é a confusão e a necessidade de parar para pensar surge. Ela é o meu jardim de Primavera quando o que vejo é a neve e a chuva, quando o frio se apodera de mim e o Inverno chega.
Transformaram-se em dias amenos e de brisas frescas os dias de calor insuportável e frio agoniante em que eu vivia sem o seu amor.

O meu sorriso, as minhas lágrimas, os meus olhos e os meus abraços pertencem-lhe. Pertencem à minha felicidade que ontem era tristeza e hoje é solidão por não a ter comigo. Ela é a minha música, ela é a minha sintonia, conjunto de notas que me percorre o corpo e me elimina dor, sinfonia de acordes que me faz mexer, que me faz viver, que me faz explodir no meio de cores e vontade de fantasiar.
Mantém-me os pés no chão quando o que preciso é de pensar, leva-me a voar quando o que preciso é de sonhos. Sim, ela faz-me sonhar.

Por ela parava o Mundo, se pudesse. Dava-lhe o céu estrelado na noite mais bonita de sempre. Dedicava-lhe um eclipse e oferecia-lhe uma chuva de estrelas cadentes.
Inventava um sistema solar novo, imaginava uma nova flor, tão bonita quanto ela. Dava-lhe o arco-íris de todas as cores, navegava com ela no mar da felicidade.
Por ela, morreria e dava-lhe a minha vida. Nasci para te amar, Constança.

Porque éramos duas, agora somos uma só.
(because we were two, we are one now)

10 de março de 2009

árdua despedida (10 de março 2009)


Dizem que o cão é o melhor amigo do homem. Talvez o seja. Na minha opinião qualquer animal pode ser o melhor amigo do homem e a minha gata era a minha. Perdi-a hoje. Tão difícil como da última vez, há 3 anos atrás, já não me lembrava do árduo sofrimento que uma perda nos traz. Não, não é só por ser um animal que se torna mais fácil de ultrapassar. Muito pelo contrário, a relação que se cria entre animal e dono é muito mais intensa e misteriosa do que com as pessoas. Entender no olhar o que ela me estava a tentar dizer, perceber no seu miar as suas necessidades e tudo era recíproco. Receber as lambidelas quando mais precisava, sentir o seu ronronar nas minhas pernas quando eu estava tranquila.

E agora sofro as últimas recordações que tenho tuas, Mia. O último carinho que te dei, ontem a noite, antes de me deitar. Uma festa tão fugaz, tão rápida, eu não adivinhava que seria a última. A derradeira vez que te alimentei, ontem à noite, antes de jantar. As últimas brincadeiras que partilhámos, ontem à tarde, depois de almoço, onde te agachaste no meu colo ao Sol e me lambeste o queixo, num gesto de afecto. Tudo isto agora me entra na memória e martela, como que dizendo que devia ter aproveitado melhor. Martela como um relógio, tic-tac tic-tac, que não pára, levando para cada vez mais longe os nossos momentos. Levando-te para cada vez mais longe de mim, e para sempre.

O sol não voltará a iluminar os teus olhos outrora tão jovens e vivos. Via neles a alegria, a simplicidade de um mundo em que conseguia entrar sempre que acariciava o teu longo e suave pêlo.
Não é fácil, não é mesmo nada fácil sermos nós a encontrar a nossa gatinha ali prostrada, no meio do alcatrão, os olhos sem vida. E uma vez basta. Já chegou o sofrimento e o trauma que me provocou perder a minha primeira gata, há 3 anos. Ontem lembrei-me desse episódio.

E hoje, repetiu-se. Saí de casa há tua procura, chamando pelo teu nome, procurando nos recantos onde te escondias, quando o meu olhar fugiu para aquela faixa de alcatrão e me deparei com o pior dos cenários. Um soluço irrompeu do meu peito, um sufocanteMiaaa” e as lágrimas desta vez, não se contiveram. Não evitei, desabei, as minhas pernas fraquejaram e soltei toda a dor que me consumia. Foi a primeira vez que os meus pais me viram chorar. Só disse “vai tirá-la dali”, esperei e saí de casa a correr, a chorar, o sofrimento a apoderar-se, incontrolável.
E agora lembro tudo o que passei, as lágrimas invadem-me os olhos de cada vez que penso que nunca mais te verei, o martelo cada vez mais forte e incessante, tic-tac tic-tac. E saber que foi de propósito, ver ali as marcas de travagem na estrada mas saber que foi tudo propositado, mais um louco ao volante que não se importa com a dor que provoca com a perda. Mais um louco que devia morrer, porque se eu soubesse quem era, faria jus à minha dor. Mais um louco que me faz repetir o mesmo sofrimento, mais um louco que fez com que fosse eu mesma a ver o nosso animal jazendo sem vida. Mais um louco que me põe novamente abaixo agora que voltava a sorrir.

Não poderei ver novamente os teus olhinhos verdes mirando os meus, a tua patinha brincalhona puxando suavemente o meu cabelo, o teu focinho mimando o meu nariz, a tua felpuda cauda parecendo uma antena… o teu pêlo amarelo e brilhante, sedoso e tão suave. Não poderei voltar a ouvir o teu ronronar feliz quando te deitavas ao meu colo, pela noite adentro.


Amo-te, amo-te, amo-te, amo-te e até ao fim amar-te-ei.

Mia, é para sempre, sempre.