23 de fevereiro de 2009

sentir


Sentir? Já não sei o que é.
Nos meus poucos anos de vida, já senti muita coisa, alegria, tristeza, amor, ódio, paixão, embaraço, vergonha, carinho… Já senti coisas tão variadas, num momento paixão e no outro a seguir indiferença, num minuto já senti afecto e no outro desilusão. Mas hoje… Hoje, aqui e agora, não sinto nada. A única coisa que sinto é o vazio. Mas o vazio não é sentir e então, será que na verdade ainda sinto? Já não sei, sinceramente.
Senti tudo ao longo destes anos e, agora vejo-me aqui sentada num banco a escrever no meu telemóvel, já que não tenho papel. E não sinto absolutamente nada. Acho que já nem sei a sensação de sentir. Está sol, mas não sinto o calor no meu corpo hoje tão frágil (será que sinto que ele é frágil?). Ouço os pássaros, mas não sinto a sua música a invadir-me. Vejo os carros a passarem, mas já nem me incomoda saber que ali viajam famílias a fingir que são felizes, no seu típico passeio de domingo.

Ouço os meus pais a conversarem, a falar sobre os dois filhos cada vez mais adultos, mas já nem a tristeza deles consigo sentir. Vejo nos seus rostos marcados por uma cruel vida um traço de abandono, como que adivinhando que estou prestes a partir.
Para onde? Nem eu sei. Tento antecipar cada vez mais o momento da minha partida, porque vejo agora o desespero no meu olhar sempre que me vejo ao espelho. Mas já nem sinto nada. Já nem pena de mim mesma sinto e não sei o que é pior, se sentir pena, se não sentir nada em relação a nós mesmos.

Agora que não sinto, não sei o que fazer. No pouco (muito) que vivi, sempre consegui lutar contra as adversidades que a vida me trazia, melhor ou pior, mas consegui sempre. E sozinha. Remei contra a maré, enfrentei ventos e tempestades. Mas hoje não, não luto. A maré está forte, ou então sou eu que estou fraca. Talvez seja isso.
Deixo-me levar pela corrente de sentimentos que não sinto e não entro em guerra com eles, não quero entrar em contacto com esse mundo de sentir e fazer sentir. Não quero ser embalada pelos sentimentos, e muito menos que os despertem em mim. Quero adormecer com o vazio. E acordar quando tudo o que me querem fazer sentir não existir.
Hoje, não sinto nada.

Mas afinal, o que é sentir?

20 de fevereiro de 2009

adeus (não volto a escrever-te)


Não sei como te escrever. Já tentei até deixar de escrever somente para ti, mas a mente obriga-me, a cada momento, a pensar unicamente na tua pessoa.

“Algum dia tem que terminar” – pois bem, decidi que hoje podia ser o dia ideal para te deixar de escrever. Não interessa o porquê de hoje ser o dia escolhido, mas talvez tivesse sido a minha alma a manifestar-se contra a prisão em que está metida. O que importa é que, o longo de todo o dia, apareceste na minha cabeça vezes de mais. Começou logo de manhã ao acordar, dia 20. Prolongou-se ao longo da tarde, onde me cruzei contigo e tive que falar como se estivesse tudo bem entre nós e, minutos mais tarde, encontrei a rapariguinha com que agora te andas a relacionar. Acabei sentada exactamente no sítio onde me beijaste pela primeira vez, tirei o caderno e pensei “estão a tentar dizer-me qualquer coisa”. Escrevi (-te).

Já me tinha apercebido que o nosso final há muito tinha chegado, mas o meu erro foi não ter consciencializado esse facto. Deixava-me arrastar pela torrente de dor que a tua partida me trás, deixava-me guiar pela mão da escuridão como se fosse a minha melhor amiga e vivia assim, a sofrer, sem fazer o mínimo de esforço para sair deste poço.
Cada vez que começava um novo dia lá vinha o teu fantasma assombrar-me. Mas agora entendi, ele vinha porque o chamava. A sensação de te ter perdido era tão grande que eu queria sentir a dor que o teu fantasma me dá, só para sentir ainda algo teu. Não interessava o quê, mas eu queria sentir-te.

Não ando à procura de lamentações, nem estou à espera de lágrimas com este texto. Queria apenas dar uma despedida digna à nossa amizade, a que eu acho que ela merece por tudo o que foi e tudo o que me deu. Passámos os melhores momentos, nunca os esquecerei, mas ficarão bem escondidos na minha memória, não por te querer apagar, mas por não te querer recordar.

Talvez um dia te volte a escrever, quando me fores indiferente. Talvez um dia eu consiga recordar os nossos momentos e escrever sobre eles positivamente, com uma lágrima a invadir-me, mas de alegria por teres deixado a tua marca na minha vida. Talvez um dia, não sei.
Mas hoje, queria apenas escrever o Adeus. Um Até Já seria mais agradável, mas a vida não é para ser agradável e muito menos um Conto de Fadas e, admito, vou ser covarde. Vou optar pela maneira mais fácil, que é acabar com tudo. É definitivo.
Talvez um dia, mas agora é definitivo. Hoje, parto em busca do que é meu.

Escrevo as últimas linhas e sinto o aperto no coração, como se ele soubesse que a razão por qual ele bate vai deixar de existir. A mão começa a tremer e a fraquejar, mas a cabeça erguida e a Vida que me espera ajudam-me a prosseguir.
Porque já foste o meu futuro, já foste o meu presente, mas agora és o meu passado.
Digo apenas um adeus, o que penso deixo escrito aqui, para que um dia saibas que sofri todos os dias, sem ti.

Sei que nunca te esquecerei, que sempre te amarei, Peter Pan.

14 de fevereiro de 2009

efemeridades


Não sei bem quando começou. Talvez, saiba, mas só talvez. Faz parte do meu passado, mas preenche o meu presente e assombra o meu futuro. Torna o meu caminho assustador, um trilho escuro, cheio de pedras no caminho e a sensação de que o perigo está sempre à espreita, pronto para me fazer tropeçar uma vez mais.

Uma aula de Português normal, analisando e estudando “Os Lusíadas”. Sim, parecia apenas uma aula como as outras. Ouvia a professora, mas o meu pensamento não estava ali, naquela sala. No entanto, algo nas palavras da professora me chamou a atenção e virei-me para ouvir: “como é que podemos ter esperança em algo tão efémero?”.
Uma pergunta retórica e simples mas, que no entanto, me ocupou a cabeça o resto da aula. A verdade daquela interrogação atingia-me o coração com uma crueldade cortante. É tão real. É tão simples, como é que eu não pensei nisso antes de ter dado o passo em frente? Como é que pude acreditar em algo que ia terminar mesmo antes de ter começado?

Fui ingénua, sim fui. Eu sei que fui. Foi algo tão breve, tão fugaz. Mudaste a minha vida, entraste nela quando andava eu aos trambolhões, marcaste a diferença, abanaste o meu mundo. Apareceste no momento certo, mas também desapareceste no momento errado. Sinceramente, nem sei se existe um momento certo para teres partido. Sei. O momento não existe. Nunca devias ter saído, nunca devias ter tornado os nossos momentos o objecto do meu pensamento ao ouvir as palavras sábias e experientes de alguém mais velho. Nunca devia pensar em ti como algo efémero. Nunca devia? Talvez devesse. Porque és, ou foste. Foste breve, foste algo tão passageiro – assim o quiseste.
Este dia sempre me deixou um vazio no corpo, e mais este ano. Agora. Quem me dera poder carregar no “delete” de todos os nossos momentos, apagá-los para sempre, ou pelo menos, por hoje. Hoje, que te olhei nos olhos ao longe e só vi indiferença. Hoje, que vi o teu jeito de ser, os teus gestos, a tua espontaneidade, a tua alma. Hoje, que te admirei e os meus olhos brilhavam, contra a minha vontade, com o pensamento vago nas palavras proferidas. Hoje, dia de S. Valentim. Logo hoje.

E agora, oh maldição, agora. Que enquanto escrevo, começaram os acordes da música. A música, a música que ouvíamos, a nossa música. Quero parar de ouvir, quero parar de escrever e por a mão no rato para desligar este som que me enche os ouvidos e me parte o coração. “ ’Cause I never really knew it was the ending, But I shoulda seen it from the begining”. Mas não sou capaz e ouço até ao fim, com a dor a alastrar-se por todo o meu peito e a exprimir-se fisicamente, através da água que surge nos meus olhos.
Fazíamos amanhã 4 meses. Odeio este dia. Odeio este dia por tudo o que foi. Desde o inicio até ao fim, que está prestes a chegar. O fim do dia.
Tudo tem um fim. Mas eu não me lembrei de aplicar isso a nós. E agora é tarde, o fim veio e eu não o esperava.

Efemeridades. Tantas, e eu não pensei em ti.

9 de fevereiro de 2009

o teu navio é a minha sombra


Sinto as palavras já passadas, as palavras já pronunciadas há demasiado tempo para as continuar a ouvir.
Sofro os toques e carícias há muito experimentados, aguento essa presença que não me larga nem me deixa avançar. Sinto as tempestades, a chuva fria e os relâmpagos estrondosos no lugar onde eu queria sol quente e a brisa calma e tranquilizante.

Tudo o que foi construído, fomos nós, o nosso castelo de princesas e jardins do amor. Eu assim pensava. Que éramos um “nós”. Agora, relembrando o que já lá vai, talvez me aperceba que era um “eu” e um “tu”, e que tudo o que construímos foi em separado. Eu imaginei a ilha deserta, a ilha dos sonhos, o futuro perfeito, o “nós” para sempre. Tu idealizaste apenas um ponto de abrigo, onde acalmasses a alma e, quando já não necessitasses, seguisses em frente, abandonando esse porto que te acolheu, sonhando com o “nós”.
Foi isso, não foi? Chegaste, instalaste sonhos e ambições, esclareceste-te e partiste na busca do que é teu. Esse navio que navega, que atraiçoa, que esmaga e magoa. Quantos portos destróis tu com essa embarcação onde vives?

Avanço agora com medo, preparo a viagem que se aproxima e ganho a coragem necessária. Olho para trás e recordo com saudade e mágoa os tempos em que flutuavas nas minha águas, com a brisa a ondular-te suavemente, eu e tu, “nós”, sintonizados numa melodia, movendo-nos como um só.
Deixo as últimas pegadas na areia da minha praia, esperando que o mar apague este rasto. Entro no meu pequeno barco à vela e começo a minha viagem à procura de mim própria, (talvez) do esquecimento. Um derradeiro olhar à ilha, ao castelo, aos momentos e sentimentos ali (falsamente) vividos. Vejo pela última vez as palmeiras do beijo, a cabana do olhar, e rede de baloiço das carícias. Vejo o porto arruinado pela tua partida. O adeus.

Navego no meu futuro agora presente, na esperança de ser feliz, mas o meu presente agora passado persegue-me e não me deixa avançar muito mais. Não consigo viver sem ti, não consigo viver sem ver o teu navio embarcado nas minhas águas.
O vento empurra suavemente a minha frágil lancha para bem longe do sitio onde fui feliz. No entanto, não é uma viagem serena. Vivo agora num constante receio de ver a sombra do teu navio a alcançar-me. Vivo alimentada pelo medo de voltar a sonhar e de habitar numa nova ilha. Porque ainda te vejo, ainda te sinto.

A (tua) sombra persegue-me. Infatigavelmente.

2 de fevereiro de 2009

O olhar que hoje (me) lançaste.


Frio. Tenho frio.
Conheço-me e não sou ninguém. Não sou ninguém porque me perdi. Perdi-me nas profundezas (agora) escuras do teu olhar. És tão frio, sinto-te fugazmente, mas é tão intenso que me corta as palavras da boca. Sinto a minha face glacial, entre coberta por pedaços de gelo, olho as minhas mãos e vejo-as tremer incontroladamente, abandonadas, sem ninguém que as segure.
Como a vida muda. Muda tão rapidamente que nem a sinto passar. Quando dou por mim, estou parada, a contemplar o vazio (tu és). A recordar os tempos em que o teu olhar era quente, acolhedor. Em que me entregava nele assim que o via. Já foi há tempos. Há demasiado tempo para continuar a relembrá-lo.
Deixava-me cair nessas profundezas paradisíacas dos teus olhos castanhos e por lá ficava. Era capaz de ficar horas a admirar o brilho que deles irradiava, a vida que eles me transmitiam. Como me faziam levitar e sentir o cheiro de amendoeiras em flor num Sol quente algarvio.
Sentia-me capaz de voar na palma da tua mão, o meu desejo era somente prender esse teu olhar num instante chamado sempre. Os olhares trocados, meu amor, eram tão efémeros, mas conseguíamos sempre absorver na íntegra o seu significado. Era no olhar que dizíamos tudo, era no olhar um do outro que nos fixávamos antes de nos beijarmos.
Outrora olhares quentes e sorrisos escondidos. Outrora sim, outrora.
O olhar que hoje me lançaste foi diferente. Voltei a perder-me nas suas profundezas, mas não me senti leve com uma pena, suave com uma carícia. Nem tão pouco mais ou menos. Senti-me num poço sem fundo, algo que nunca pensei ser possível no teu olhar.
Os teus doces olhos castanhos tornaram-se frios e escuros. Fiquei por lá perdida, naquela escuridão a tentar encontrar saída. Nem a tua presença senti. Foi um olhar tão banal, tão vulgar, que só quem não te conhece consegue de lá sair incólume.
Outrora. Agora, és o desconhecido, caminhas no meu olhar e nem o valorizas. Assim o fizeste.
Saí de lá com a alma congelada. Se é que a tenho.
Penso que a deixei no (teu) olhar distante.